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Politica

Do medo à resiliência: 25 anos de lições depois do 11 de Setembro

Bruno Cardoso Reis analisa a crescente influência dos Houthi no porto de Mocha e as possíveis consequências para a economia global. A conversa revisita também as grandes lições deixadas pelos atentados de 11 de Setembro de 2001, a ascensão da AfD na Alemanha e os novos movimentos que começam a definir a disputa eleitoral no Brasil.

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Do medo à resiliência: 25 anos de lições depois do 11 de Setembro

Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, a pergunta já não é apenas o que mudou desde aquele dia, mas também o que o mundo aprendeu com as suas consequências.

A reflexão esteve no centro de uma conversa com o historiador Bruno Cardoso Reis, que considera o 11 de Setembro um dos acontecimentos que mais profundamente alteraram a política internacional contemporânea. Para o historiador, há três grandes ensinamentos: nenhuma ameaça deve ser subestimada, actores aparentemente mais fracos podem produzir efeitos geopolíticos enormes e, sobretudo, existem limites para aquilo que os Estados conseguem controlar.

A chamada “guerra ao terror” demonstrou precisamente essa última realidade. Os Estados Unidos conseguiram atingir duramente a Al-Qaeda e eliminar Osama bin Laden, mas não conseguiram erradicar o fenómeno jihadista. O regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão, duas décadas depois da intervenção norte-americana, tornou-se um dos exemplos mais claros de como as guerras podem terminar sem que os problemas que lhes deram origem desapareçam.

Ainda assim, reduzir estes 25 anos a uma história de fracassos seria igualmente simplista. Houve mudanças profundas na segurança internacional e, apesar da persistência de organizações terroristas, não se repetiu um ataque de dimensão comparável ao de 2001 no território continental dos Estados Unidos. A principal lição parece ser menos triunfalista e mais realista: ameaças complexas raramente desaparecem de forma definitiva, mas podem ser contidas, reduzidas e enfrentadas com instituições mais preparadas.

É uma perspectiva particularmente relevante quando se olha para o Médio Oriente.

No Iémen, o avanço dos Houthis em direcção a zonas estratégicas do Mar Vermelho voltou a colocar em evidência a importância geopolítica do país. O porto de Mocha, associado historicamente ao comércio do café, está inserido numa das regiões marítimas mais sensíveis do planeta. A proximidade ao estreito de Bab-el-Mandeb transforma qualquer alteração no equilíbrio militar da região numa questão que ultrapassa largamente as fronteiras iemenitas.

O problema não é apenas militar. Uma perturbação prolongada das rotas marítimas pode afectar energia, transporte, comércio internacional e preços. O Iémen, por sua vez, continua marcado por décadas de guerras, divisões políticas e fragilidade institucional. A sua história mostra como conflitos internos, interesses regionais e disputas internacionais podem sobrepor-se até transformar um país inteiro num palco de crises sucessivas.

E talvez seja justamente aí que reside uma das dimensões mais importantes da história iemenita: por trás dos mapas militares existem milhões de pessoas para quem a geopolítica se traduz em algo muito mais concreto — segurança, alimentação, emprego, saúde e possibilidade de reconstruir uma vida normal.

A mesma lógica de vulnerabilidade aparece longe do Médio Oriente.

Na Europa, a discussão sobre cabos submarinos revela uma nova dimensão dos conflitos modernos. Grande parte das comunicações digitais internacionais depende de infraestruturas que permanecem invisíveis para a maioria das pessoas. O debate sobre a chamada guerra híbrida mostra que a segurança do século XXI já não se resume a tanques, aviões e fronteiras. Energia, dados, comunicações e infraestruturas críticas também fazem parte do espaço estratégico.

Mas há, neste domínio, uma nota positiva: detectar uma vulnerabilidade significa também ter a possibilidade de a proteger. A vigilância sobre infraestruturas críticas, a capacidade de identificar ameaças e o investimento em sistemas de prevenção podem transformar aquilo que hoje parece uma fragilidade numa oportunidade para aumentar a resiliência das sociedades.

A guerra na Ucrânia acrescenta outra dimensão. Um incidente envolvendo um drone e a deslocação internacional de Volodymyr Zelenskyy recorda como, num conflito prolongado, a fronteira entre o risco militar e a vida diplomática pode tornar-se extremamente ténue. Ao mesmo tempo, a manutenção de contactos internacionais demonstra que a diplomacia continua a funcionar mesmo em ambientes de elevada tensão.

Na Alemanha, o crescimento eleitoral da AfD introduz uma preocupação de natureza diferente: a transformação do equilíbrio político dentro de uma das principais potências europeias. O resultado expressivo obtido pelo partido levanta questões sobre a capacidade dos partidos tradicionais para responder às inquietações dos eleitores e sobre o futuro da estratégia de isolamento político conhecida como Brandmauer.

Mais do que antecipar resultados definitivos, porém, importa reconhecer que a democracia é também um processo de disputa, adaptação e escolha. O crescimento de forças populistas ou radicais obriga os partidos tradicionais a compreender as razões do descontentamento social e a responder através de políticas concretas, em vez de depender apenas de rótulos ou de barreiras políticas.

Na América Latina, o Brasil surge como outro dos grandes pontos de interrogação. A aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro nas sondagens, segundo a análise apresentada na entrevista, transforma a eleição presidencial num acontecimento de importância não apenas nacional, mas também regional. O tamanho económico e político do Brasil faz com que qualquer mudança na sua orientação tenha consequências para as relações com os Estados Unidos, a Europa, a China e o chamado Sul Global.

É precisamente neste cruzamento entre política doméstica e geopolítica que o mundo contemporâneo se torna mais difícil de interpretar. As escolhas de um país raramente ficam confinadas às suas fronteiras.

E a China aparece como mais uma peça desse novo equilíbrio. A expansão da indústria chinesa de defesa e a venda de equipamento militar a países como o Uzbequistão revelam que Pequim procura aumentar a sua influência também num sector em que, durante muito tempo, Estados Unidos, Rússia e França mantiveram posições dominantes.

O resultado é um mundo menos previsível, mas também mais plural. O poder internacional está a distribuir-se por diferentes actores, tecnologias e regiões. Isso cria riscos, mas também abre espaço para novas formas de cooperação e equilíbrio.

É por isso que os 25 anos do 11 de Setembro não precisam de ser lembrados apenas através do medo.

A memória daquele dia permanece dolorosa, mas a história que se seguiu também demonstra a capacidade das sociedades para aprender, adaptar instituições, reforçar a segurança e reconstruir. Nem todas as ameaças foram vencidas. Nem todos os conflitos encontraram solução. E algumas novas ameaças surgiram precisamente quando outras pareciam estar sob controlo.

Mas há uma diferença fundamental entre viver num mundo sem riscos e viver num mundo que aprendeu a reconhecê-los.

O primeiro talvez nunca seja possível. O segundo depende das escolhas que forem feitas.

No 11 de Setembro, o mundo descobriu de forma brutal que acontecimentos aparentemente inimagináveis podiam alterar a ordem internacional. Vinte e cinco anos depois, a maior lição talvez seja outra: nenhum país controla sozinho o curso da história, mas sociedades preparadas, instituições responsáveis e uma diplomacia capaz de dialogar podem reduzir os efeitos da incerteza.

O futuro continuará a trazer crises. A esperança está em saber que cada geração também pode aprender com elas.

E talvez essa seja a verdadeira mensagem deste 11 de Setembro: recordar não para viver com medo, mas para construir um mundo mais preparado, mais prudente e, sobretudo, mais capaz de escolher a paz.

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