RENAMO reúne Conselho Nacional em Outubro para discutir crise interna aimnews.org
O relógio político da oposição moçambicana parece ter parado no tempo, suspenso no ar denso de uma sala de conferências onde a linguagem burocrática tenta cobrir o ruído de uma estrutura em ruínas. Quando a direção da RENAMO convoca o seu Conselho Nacional para Outubro, não está apenas a marcar uma data na agenda partidária; está a abrir as portas de um labirinto onde a sobrevivência institucional do partido se cruza com a própria apatia da nação. No centro deste palco fragmentado, desenha-se uma encruzilhada dolorosa: até quando continuará a perdurar este eclipse da vontade, em que a gestão de pequenos privilégios sufoca a chama de uma verdadeira visão de país?
A realidade que se esconde atrás das declarações oficiais é a de um partido paralisado por uma batalha silenciosa entre dois mundos inconciliáveis. De um lado, vegeta a facção fisiológica, composta por quadros que encaram a política como um balcão de negócios, um abrigo confortável para gerir carreiras e garantir benesses do status quo. Do outro, resiste uma base ideológica que exige o regresso aos princípios fundacionais de combate e transformação social. Esta fratura, em vez de ser sanada através do oxigénio da democracia interna e do debate franco sobre os estatutos, foi transformada num terreno fértil para a proliferação de fações e dissidências que minam a coesão do partido a partir de dentro.
Esta letargia prolongada, contudo, não é fruto de mero acaso nem de uma simples incompetência de liderança. Há uma mão externa invisível, mas omnipresente, a mover as peças neste tabuleiro de sombras, nutrindo a divisão e colhendo os valiosos frutos da irrelevância da oposição. A quem aproveita, afinal, este teatro de fações que consome as energias da oposição enquanto o custo de vida esmaga a população e a infraestrutura do país desaba? A resposta flutua no ar: a paralisia do rival é a garantia de impunidade e de perpetuação no poder de quem lucra diretamente com o silêncio e com a resignação do povo moçambicano.
Para que o Conselho Nacional de Outubro não seja apenas mais uma nota de rodapé no livro da desilusão política, o partido terá de quebrar este feitiço de acomodação. Reinstaurar a democracia interna, escolher a convicção ideológica em detrimento do fisiologismo e redefinir prioridades em prol da urgência nacional — da economia sufocada ao desespero da juventude — são as únicas vias para impedir que a oposição se torne definitivamente num fantasma a vagar pelas ruínas das suas próprias promessas.