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Finanças Pessoais

Por que bancos gostam de clientes endividados e como ganham dinheiro com as dívidas

Os bancos podem ganhar dinheiro com empréstimos, cartões de crédito, descobertos bancários e outros produtos de financiamento. Quanto mais os clientes recorrem ao crédito, maior pode ser o volume de juros e comissões gerado para a instituição. Mas existe uma diferença fundamental entre um cliente que utiliza crédito de forma controlada e outro que acumula dívidas que já não consegue pagar sem comprometer o orçamento familiar.

  • 29 Sep 2026
  • Redacção
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Por que bancos gostam de clientes endividados e como ganham dinheiro com as dívidas

As pessoas estão andando por uma rua em direção a um caixa eletrônico

Um cliente que recebe o salário, paga as despesas e utiliza ocasionalmente um cartão de crédito pode representar uma fonte de receitas para um banco. Outro que recorre constantemente ao descoberto bancário, contrai empréstimos para pagar prestações antigas e mantém saldos devedores durante meses também pode gerar receitas — embora represente um risco de incumprimento muito maior.

É neste modelo de negócio que surge uma questão importante para as finanças pessoais: se os juros pagos pelos clientes constituem uma fonte de receita dos bancos, até que ponto o endividamento dos consumidores beneficia as instituições financeiras?

A resposta exige distinguir o funcionamento económico do crédito das práticas concretas de cada banco. As instituições financeiras não precisam de levar os clientes à insolvência para ganhar dinheiro. Precisam, isso sim, de conceder crédito em condições que lhes permitam obter receitas suficientes para cobrir o custo dos fundos, as despesas operacionais, as perdas com incumprimentos e outros custos, mantendo uma margem de lucro.

1. Como os bancos ganham dinheiro com clientes endividados
Edifício elegante do banco com entrada e árvores arqueadas
Quando um banco concede um empréstimo, disponibiliza dinheiro que o cliente se compromete a devolver segundo determinadas condições. Em contrapartida, pode cobrar juros e, quando contratualmente previstos e legalmente permitidos, comissões e outros encargos.

Imagine um cliente que contrai um empréstimo de 100.000 meticais e, ao longo do contrato, paga um total de 125.000 meticais. A diferença de 25.000 meticais corresponde ao custo adicional suportado pelo cliente, antes de considerar eventuais encargos não incluídos nesse total.

Essa diferença não representa automaticamente o lucro líquido do banco. A instituição tem de suportar custos de financiamento, funcionamento, avaliação do risco, cobrança e eventuais perdas com outros empréstimos.

O mesmo princípio aplica-se a operações denominadas noutras moedas. Um empréstimo de 2.000 dólares americanos que resulte num reembolso total de 2.400 dólares americanos implica um custo adicional de 400 dólares americanos. Um financiamento de 1.500 euros com reembolso total de 1.800 euros representa um custo adicional de 300 euros.

Na África do Sul, um crédito de 20.000 rands com reembolso total de 24.000 rands gera uma diferença de 4.000 rands. No Brasil, um empréstimo de 10.000 reais com reembolso total de 12.000 reais representa um custo adicional de 2.000 reais.

Estes são exemplos ilustrativos, não taxas médias de mercado nem ofertas reais de instituições financeiras.

O mecanismo económico é simples: o crédito pode gerar receitas durante o período em que o cliente mantém uma dívida por pagar.

2. Quanto mais crédito é utilizado, maiores podem ser as receitas
Prédio do banco Icici iluminado à noite, pessoa caminhando por perto
Os bancos disponibilizam diferentes produtos de financiamento, incluindo empréstimos pessoais, crédito à habitação, financiamento automóvel, cartões de crédito e descobertos bancários.

Cada produto tem condições, custos e riscos próprios. Em determinadas operações, o cliente paga juros sobre o saldo utilizado; noutras, existe um plano de prestações definido contratualmente.

Considere um cliente que mantém uma dívida de 60.000 meticais num produto de crédito com uma taxa nominal anual ilustrativa de 24%. Numa conta simplificada, sem amortizações nem encargos adicionais, os juros correspondentes a um ano seriam de 14.400 meticais.

Se o cliente amortizar o capital, os juros futuros serão normalmente calculados sobre um saldo inferior, de acordo com as condições do contrato. Se mantiver a dívida elevada durante mais tempo, o custo total poderá aumentar.

É por isso que o prazo de reembolso e a velocidade com que o cliente reduz o capital em dívida são tão importantes.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a um saldo de 1.000 dólares americanos, 900 euros ou 15.000 rands. No entanto, não se devem comparar directamente os valores nominais dessas moedas: é necessário considerar as taxas de juro efectivamente aplicadas, os prazos, as comissões e as condições de cada produto.

3. Por que um cliente que paga juros pode ser interessante para o banco?
Edifício de pedra grande com os povos na esquina da rua
Do ponto de vista comercial, o banco procura clientes capazes de utilizar os seus produtos e cumprir as obrigações assumidas.

Um cliente que contrai um empréstimo e o paga pontualmente pode gerar receitas de juros ao longo de vários meses ou anos. Se mantiver uma relação bancária estável, poderá também utilizar outros serviços, como transferências, contas, cartões e produtos de poupança.

Isso não significa que o banco prefira necessariamente um cliente excessivamente endividado.

Um consumidor que já não consegue pagar as prestações pode deixar de gerar os pagamentos previstos e obrigar a instituição a gastar recursos em cobranças, reestruturações ou processos judiciais. Se o banco não recuperar parte do dinheiro emprestado, terá de reconhecer perdas, segundo as regras contabilísticas e prudenciais aplicáveis.

Por isso, o cliente que paga juros e cumpre o contrato pode ser comercialmente valioso; o cliente que acumula dívidas insustentáveis pode tornar-se uma fonte de prejuízo.

A distinção é essencial para compreender o verdadeiro interesse económico de uma instituição financeira.

4. O cartão de crédito pode prolongar o endividamento

O cartão de crédito permite efectuar compras utilizando um limite disponibilizado pela instituição financeira. Dependendo do contrato, o cliente pode liquidar o saldo integralmente ou pagar apenas uma parte, ficando o restante sujeito às condições de financiamento aplicáveis.

É nesta segunda situação que o custo pode tornar-se mais pesado.

Imagine que uma família acumula uma dívida de 30.000 meticais no cartão de crédito. Se pagar apenas uma parte do saldo e continuar a realizar compras, os pagamentos poderão não ser suficientes para reduzir a dívida de forma significativa, sobretudo quando os juros e outros encargos absorvem uma parcela importante do valor pago.

O problema agrava-se quando o cartão deixa de ser utilizado para despesas pontuais e passa a financiar alimentação, transporte e outras necessidades recorrentes porque o salário já não chega até ao final do mês.

Um padrão semelhante pode ocorrer com um cartão com saldo devedor de 500 euros, uma dívida de 700 dólares americanos ou uma obrigação de 6.000 reais. O valor nominal muda, mas a questão financeira permanece: quanto do rendimento futuro já está comprometido?

O consumidor deve verificar a taxa de juro, o pagamento mínimo exigido, as comissões aplicáveis e o método utilizado para calcular os juros. Pagar o mínimo pode manter o contrato regular, mas não significa necessariamente que a dívida esteja a ser reduzida a um ritmo financeiramente confortável.

5. O perigo de pedir um empréstimo para pagar outro

Uma das situações mais preocupantes ocorre quando o consumidor contrai uma nova dívida para liquidar uma obrigação anterior, sem resolver o desequilíbrio que originou o problema.

Imagine um trabalhador que recebe 45.000 meticais por mês e paga 12.000 meticais em prestações. Depois de enfrentar despesas imprevistas, deixa de conseguir cumprir uma obrigação e pede um novo empréstimo para regularizar o atraso.

Se a nova operação acrescentar 5.000 meticais às prestações mensais, o compromisso total poderá subir para 17.000 meticais, caso a dívida anterior permaneça activa ou não seja efectivamente liquidada.

A família passa a dispor de menos dinheiro para alimentação, habitação, transporte, educação e saúde.

Uma consolidação de dívidas pode ser útil quando reduz o custo total, torna as prestações sustentáveis e estabelece um plano realista de reembolso. Mas, quando apenas prolonga o prazo e aumenta os encargos, pode adiar o problema sem o resolver.

Este risco existe independentemente da moeda do contrato. Um consumidor que recebe em meticais e contrai crédito em dólares americanos pode enfrentar dificuldades adicionais se o metical se depreciar, porque precisará de mais meticais para comprar os dólares necessários ao pagamento.

6. Os bancos também podem ganhar com comissões

Os juros não são a única fonte possível de receitas bancárias.

Dependendo do mercado, do produto e do contrato, os bancos podem cobrar comissões de manutenção, transferências, emissão de cartões, determinadas operações de crédito e outros serviços.

Algumas comissões não dependem directamente do nível de endividamento do cliente. Uma pessoa sem empréstimos também pode pagar encargos bancários pela utilização de determinados serviços.

Por isso, seria incorrecto afirmar que todos os bancos dependem exclusivamente dos juros cobrados a clientes endividados ou que todas as instituições procuram aumentar indiscriminadamente as dívidas dos seus clientes.

A estrutura das receitas varia entre instituições, países e modelos de negócio. Para compreender a situação de um banco específico, é necessário analisar os seus relatórios financeiros, as receitas de juros, as comissões, os custos operacionais e as perdas de crédito.

7. O que acontece quando uma família está demasiado endividada?

O endividamento excessivo pode comprometer a capacidade de uma família pagar as despesas essenciais e enfrentar imprevistos.

Considere um agregado familiar com rendimento mensal de 70.000 meticais. Se pagar 18.000 meticais de crédito à habitação, 7.000 meticais de financiamento automóvel e 5.000 meticais de outras dívidas, terá 30.000 meticais comprometidos em prestações.

Isso representa aproximadamente 42,9% do rendimento mensal, deixando 40.000 meticais para todas as restantes despesas.

A situação pode tornar-se mais difícil se aumentarem os custos de transporte e alimentação, se surgir uma despesa de saúde ou se um dos membros do agregado perder parte do rendimento.

Uma família que recebe 2.000 euros mensais e paga 800 euros em prestações enfrenta uma pressão orçamental diferente em termos absolutos, mas o princípio é semelhante. O mesmo vale para um agregado que recebe 50.000 rands, 8.000 reais ou 10.000 dólares americanos por mês: é necessário analisar o rendimento líquido, as despesas essenciais e o conjunto das obrigações financeiras.

Não existe uma percentagem única que determine, em todos os casos, se uma dívida é sustentável. A avaliação depende da estabilidade do rendimento, do custo da habitação, das responsabilidades familiares, das condições dos empréstimos e da existência de poupanças para emergências.

O sinal de alerta mais importante é a necessidade recorrente de contrair novas dívidas para pagar despesas correntes ou prestações antigas.

8. Como proteger o orçamento sem deixar de utilizar os bancos

A solução não passa necessariamente por evitar todo o crédito. Um empréstimo pode financiar uma habitação, um instrumento de trabalho ou uma despesa necessária. O essencial é avaliar o custo e a capacidade de reembolso antes de assumir a obrigação.

O primeiro passo é calcular o total das prestações mensais e compará-lo com o rendimento líquido. Em seguida, é necessário identificar os empréstimos com juros e encargos mais elevados, verificando as condições de amortização antecipada e eventuais penalizações antes de decidir qual liquidar primeiro.

Também é importante ler os contratos, comparar propostas de diferentes instituições e pedir uma discriminação do custo total do financiamento. Uma prestação aparentemente baixa pode esconder um prazo longo e um custo final elevado.

Se já existirem atrasos, o consumidor deve contactar o banco antes de a situação se agravar. Uma renegociação pode ser possível, mas deve ser avaliada pelo custo total, pela nova prestação e pelo prazo, não apenas pela redução imediata do pagamento mensal.

Quando o rendimento não cobre sequer as despesas essenciais, assumir novo crédito para manter o consumo habitual tende a aumentar a fragilidade financeira. Nessa situação, é necessário rever as despesas, identificar as obrigações prioritárias e procurar aconselhamento financeiro ou jurídico adequado.

Conclusão: os bancos ganham com o crédito, mas o excesso de dívida também lhes custa

Os bancos podem beneficiar de clientes que utilizam crédito porque os juros e determinadas comissões constituem fontes de receita. Contudo, o endividamento excessivo aumenta o risco de incumprimento, pode gerar perdas e exige recursos adicionais para gerir dívidas problemáticas.

A questão relevante para as finanças pessoais não é simplesmente saber se os bancos gostam de clientes endividados. É compreender que tipo de endividamento gera receitas para o banco e que tipo de dívida coloca em risco a capacidade de pagamento do consumidor.

Antes de aceitar um empréstimo, calcule quanto pagará no total, quanto do seu rendimento ficará comprometido e se conseguirá cumprir as prestações caso surja uma despesa inesperada. Se já estiver a contrair crédito para pagar crédito, trate essa situação como um sinal de alerta e procure uma solução que reduza efectivamente o custo e a pressão sobre o orçamento.

O banco avalia o risco da operação para proteger o seu capital. O consumidor precisa de fazer uma avaliação equivalente para proteger o seu rendimento futuro.

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