O cartão não é apenas um pedaço de plástico

Quando um consumidor paga 10.000 meticais (MZN 10.000; cerca de US$ 156; € 134; R 2.900; ¥ 1.120; CN¥ 1.120; ₩ 105 mil) com cartão, o comerciante não está simplesmente a receber uma transferência directa da conta do cliente.
A transacção passa por uma infraestrutura que autoriza, processa e liquida o pagamento.
Participam, conforme o tipo de operação, o banco que emitiu o cartão, o banco ou instituição que atende o comerciante e a rede de pagamento utilizada.
Cada participante pode receber uma parcela das receitas associadas ao processamento.
Como o banco ganha dinheiro com o cartão

Uma das fontes de receita pode estar nas comissões relacionadas com determinadas transacções e serviços.
O modelo varia conforme o país, o tipo de cartão, a rede de pagamento, o contrato entre as instituições e a natureza da operação. Nem todo o valor pago pelo comerciante corresponde a receita directa do banco emissor.
Existe uma cadeia de participantes e diferentes tipos de tarifas.
É precisamente essa estrutura que permite que uma compra aparentemente simples seja transformada numa actividade comercial recorrente para o sector financeiro.
O cartão de crédito tem outro negócio: os juros

No cartão de crédito, existe uma fonte de receita particularmente importante: o financiamento do saldo em dívida.
Imagine que um consumidor utiliza 20.000 meticais (MZN 20.000; cerca de US$ 312; € 268; R 5.800; ¥ 2.240; CN¥ 2.240; ₩ 210 mil) do limite disponível.
Se pagar integralmente o valor devido dentro das condições previstas, poderá evitar determinados encargos de financiamento, dependendo do contrato.
Mas, se transportar uma parte do saldo para o período seguinte, podem aplicar-se juros e outros encargos previstos no contrato.
É aqui que o cartão deixa de funcionar apenas como meio de pagamento e passa a funcionar também como instrumento de crédito.
O limite elevado pode aumentar o uso do cartão

Um cartão com limite de 100.000 meticais (MZN 100.000; cerca de US$ 1.560; € 1.340; R 29.000; ¥ 11.200; CN¥ 11.200; ₩ 1,05 milhão) não significa que o cliente tenha 100.000 meticais de rendimento adicional.
É dinheiro que pode estar disponível para gastar, mas que terá de ser pago posteriormente, conforme as condições do produto.
O perigo para o orçamento aparece quando o consumidor interpreta o limite como se fosse rendimento.
Uma família que ganha 60.000 meticais por mês (MZN 60.000; cerca de US$ 935; € 800; R 17.400; ¥ 6.700; CN¥ 6.700; ₩ 630 mil) pode ter um cartão com limite superior ao seu salário.
Se utilizar grande parte desse limite, a factura futura pode tornar-se incompatível com o rendimento mensal.
Os cartões também podem gerar receitas com anuidades e serviços

Dependendo do produto, o banco pode cobrar uma anuidade ou outras tarifas relacionadas com manutenção e utilização do cartão.
Cartões premium podem ter custos mais elevados, associados a serviços adicionais, benefícios ou programas específicos.
Para o consumidor, a questão importante é perceber quanto custa manter o cartão e quais benefícios realmente utiliza.
Pagar uma tarifa anual por benefícios que nunca são utilizados significa suportar um custo sem obter a correspondente utilidade.
Compras internacionais podem gerar receitas adicionais

Quando o cartão é utilizado numa moeda diferente da moeda da conta, pode existir uma conversão cambial.
Imagine uma compra de US$ 100, equivalente aproximadamente a 6.400 meticais (MZN 6.400; US$ 100; € 86; R 1.860; ¥ 11.200; CN¥ 730; ₩ 135 mil), utilizando uma taxa meramente ilustrativa.
O valor final debitado pode depender da taxa de câmbio aplicada pela rede ou instituição, além de eventuais encargos previstos no contrato.
Por isso, uma compra internacional pode custar mais do que o consumidor imagina quando olha apenas para o preço apresentado pelo comerciante.
O câmbio é também um negócio

As operações internacionais exigem conversão entre moedas.
Quando um cliente utiliza um cartão emitido em meticais para efectuar uma compra em dólares, euros, rands, yuans, ienes ou wones, existe uma operação de conversão.
Uma compra de €100 pode ser apresentada como aproximadamente 7.500 meticais (MZN 7.500; cerca de US$ 117; € 100; R 2.175; ¥ 13.000; CN¥ 850; ₩ 158 mil), usando uma taxa meramente ilustrativa.
O valor efectivo debitado dependerá da taxa aplicável à operação e dos encargos previstos pelo emissor.
É por isso que o consumidor deve verificar as condições para transacções internacionais e conversão cambial.
O comerciante também paga pela aceitação do cartão

Para o comerciante, aceitar cartões tem um custo.
A empresa disponibiliza aos clientes uma forma conveniente de pagamento, mas pode suportar determinadas tarifas relacionadas com a aceitação e processamento das transacções.
Para uma venda de 50.000 meticais (MZN 50.000; cerca de US$ 780; € 670; R 14.500; ¥ 5.600; CN¥ 5.600; ₩ 525 mil), uma pequena percentagem aplicada sobre milhares de operações pode representar uma receita significativa para os participantes da rede.
É uma das razões pelas quais os pagamentos electrónicos constituem uma actividade económica relevante para o sector financeiro.
O cartão ajuda o banco a conhecer o comportamento do cliente

Existe ainda um activo menos visível: a informação financeira gerada pelas operações.
As transacções podem revelar padrões de utilização, frequência de pagamentos e outras características do relacionamento financeiro, sempre dentro das regras legais e de privacidade aplicáveis.
Essa informação pode contribuir para a gestão de risco, prevenção de fraude e oferta de produtos financeiros.
Para o banco, portanto, o cartão pode ser simultaneamente um meio de pagamento, uma fonte de receitas e uma ferramenta de relacionamento com o cliente.
O problema começa quando o cartão substitui o rendimento

O cartão de crédito pode ser útil para determinadas despesas e emergências, mas torna-se perigoso quando começa a financiar despesas que o rendimento mensal não consegue suportar.
Imagine uma pessoa com salário de 40.000 meticais (MZN 40.000; cerca de US$ 624; € 536; R 11.600; ¥ 4.480; CN¥ 4.480; ₩ 420 mil).
Se utilizar 15.000 meticais (MZN 15.000; cerca de US$ 234; € 201; R 4.350; ¥ 1.680; CN¥ 1.680; ₩ 158 mil) do cartão todos os meses para completar despesas correntes, poderá criar uma dívida que se acumula.
No início, o cartão parece resolver o problema. Depois, parte do salário começa a ser utilizada para pagar compras feitas meses antes.
O cartão deixa então de antecipar consumo e passa a consumir rendimento futuro.
Cartão de débito e cartão de crédito não são a mesma coisa

A distinção é fundamental.
No cartão de débito, a operação está normalmente ligada aos fundos disponíveis na conta do cliente, conforme as condições do produto.
No cartão de crédito, o banco disponibiliza um limite que pode ser utilizado pelo cliente e posteriormente reembolsado.
Essa diferença muda completamente o risco para o orçamento familiar.
Uma compra de 10.000 meticais com cartão de débito (MZN 10.000; cerca de US$ 156; € 134; R 2.900; ¥ 1.120; CN¥ 1.120; ₩ 105 mil) reduz imediatamente os fundos disponíveis.
No cartão de crédito, os 10.000 meticais podem transformar-se numa obrigação futura, sujeita às condições de pagamento e aos encargos aplicáveis.
O consumidor deve perceber de onde vem a receita

O modelo de negócio dos cartões não depende de uma única fonte.
Pode envolver comissões de processamento, anuidades, serviços, operações cambiais e, no crédito, juros e outros encargos previstos contratualmente.
Isso explica por que razão os bancos têm interesse em aumentar a utilização dos seus cartões e em oferecer diferentes modalidades de pagamento.
Para o consumidor, compreender esse modelo ajuda a interpretar melhor promoções, limites de crédito, cartões premium e ofertas de financiamento.
Conclusão

Por trás de cada cartão existe uma indústria de pagamentos e crédito muito maior do que a operação que o consumidor vê no terminal.
O banco pode ganhar dinheiro através de várias componentes da relação: utilização do cartão, serviços, comissões, operações cambiais e, no caso do crédito, juros sobre saldos financiados.
Isso não significa que utilizar cartão seja necessariamente mau. O problema aparece quando o consumidor deixa de perceber a diferença entre meio de pagamento e dívida.
O cartão pode facilitar uma compra. Mas, quando é de crédito, a compra continua a ter de ser paga — e pode custar mais se o saldo for financiado.