Quando o crédito deixa de resolver um problema e passa a financiar o consumo
O crédito não é, por si só, um problema financeiro. Pode permitir a aquisição de uma habitação, financiar uma actividade económica ou ajudar a distribuir no tempo o custo de uma despesa importante. O risco depende da finalidade do empréstimo, do seu custo e da capacidade de pagamento de quem o contrai.
A situação é diferente quando uma pessoa utiliza crédito para manter um estilo de vida que o rendimento não permite financiar.
Imagine um trabalhador que recebe 60.000 meticais (MZN) por mês, aproximadamente 940 dólares norte-americanos (USD), 827 euros (EUR), 15.420 rands sul-africanos (ZAR), 3.155 yuans chineses (CNY), 149.400 ienes japoneses (JPY) ou 642.990 wons sul-coreanos (KRW).
Depois de pagar a renda, a alimentação, o transporte, a electricidade e as restantes despesas essenciais, sobra-lhe pouco dinheiro. Ainda assim, decide comprar roupas de marca a prestações, financiar um telemóvel e utilizar o cartão de crédito para sair com amigos e frequentar restaurantes.
Durante algum tempo, a situação pode parecer controlável. O trabalhador continua a comprar, mantém os seus hábitos e não precisa de reduzir imediatamente o consumo. Mas cada compra financiada cria uma obrigação que terá de ser paga com rendimentos futuros.
O problema aparece quando várias prestações começam a disputar o mesmo salário. O dinheiro que antes estava disponível para despesas correntes passa a ser utilizado para pagar decisões de consumo tomadas nos meses anteriores.
O crédito permite antecipar o consumo, mas não elimina o custo desse consumo. Quando existem juros, comissões ou outros encargos, o consumidor pode acabar por pagar mais do que pagaria se tivesse comprado o mesmo produto com dinheiro próprio.
O salário aumenta, mas o dinheiro continua a faltar
Uma das consequências do financiamento do estilo de vida é a dificuldade em beneficiar de aumentos salariais.
Considere um trabalhador cujo rendimento mensal passa de 60.000 meticais (MZN), cerca de 940 dólares (USD), 827 euros (EUR), 15.420 rands (ZAR), 3.155 yuans (CNY), 149.400 ienes (JPY) ou 642.990 wons (KRW), para 80.000 meticais (MZN), aproximadamente 1.253 dólares (USD), 1.102 euros (EUR), 20.560 rands (ZAR), 4.207 yuans (CNY), 199.200 ienes (JPY) ou 1.714.640 wons (KRW).
O aumento de 20.000 meticais (MZN), equivalente a aproximadamente 313 dólares (USD), 276 euros (EUR), 5.140 rands (ZAR), 2.103 yuans (CNY), 49.800 ienes (JPY) ou 428.660 wons (KRW), poderia reforçar a poupança ou ajudar a reduzir dívidas.
No entanto, se o trabalhador utilizar o aumento para assumir novas prestações, mudar para hábitos de consumo mais caros e aumentar as despesas recorrentes, poderá continuar sem margem financeira.
É por isso que ganhar mais não resolve necessariamente uma vida financeira desorganizada. Se as despesas e os compromissos crescerem à mesma velocidade — ou mais depressa — do que o rendimento, a fragilidade financeira permanece.
A consequência é uma dependência crescente do salário seguinte. Qualquer atraso no pagamento, doença ou interrupção profissional pode comprometer o cumprimento das obrigações.
O verdadeiro custo de comprar tudo a prestações
Uma prestação mensal baixa pode tornar um produto aparentemente acessível. Contudo, o valor da prestação, isoladamente, não revela o custo total do financiamento.
Imagine uma compra cujo preço a pronto é de 30.000 meticais (MZN), aproximadamente 470 dólares (USD), 413 euros (EUR), 7.710 rands (ZAR), 3.155 yuans (CNY), 74.700 ienes (JPY) ou 642.990 wons (KRW).
O vendedor propõe um pagamento de 3.000 meticais (MZN) por mês, cerca de 47 dólares (USD), 41 euros (EUR), 771 rands (ZAR), 316 yuans (CNY), 7.470 ienes (JPY) ou 64.300 wons (KRW), durante 12 meses.
O total das prestações será de 36.000 meticais (MZN), aproximadamente 564 dólares (USD), 496 euros (EUR), 9.252 rands (ZAR), 3.786 yuans (CNY), 89.640 ienes (JPY) ou 771.600 wons (KRW).
A diferença será de 6.000 meticais (MZN), cerca de 94 dólares (USD), 83 euros (EUR), 1.542 rands (ZAR), 631 yuans (CNY), 14.940 ienes (JPY) ou 128.600 wons (KRW).
Neste exemplo hipotético, o consumidor paga 20% acima do preço inicial. O cálculo não inclui eventuais comissões adicionais e pressupõe que os valores indicados correspondem ao total efectivamente cobrado.
Se o consumidor financiar vários produtos, o custo acumulado pode tornar-se significativo. Cada prestação parece pequena quando considerada individualmente, mas a soma das obrigações pode consumir uma parcela importante do rendimento mensal.
Antes de aceitar qualquer financiamento, é necessário comparar o preço a pronto com o total a pagar, verificar a taxa de juro, analisar as comissões e confirmar as consequências de um atraso.
O crédito para manter aparências pode comprometer a família
O financiamento do estilo de vida nem sempre resulta de necessidades materiais. Em alguns casos, está associado à pressão social para acompanhar os hábitos de amigos, colegas ou familiares.
A pessoa pode sentir que precisa de trocar frequentemente de telemóvel, vestir determinadas marcas, conduzir um carro mais recente ou frequentar estabelecimentos dispendiosos para manter uma imagem de sucesso.
Quando essas despesas são suportadas por crédito, a aparência de prosperidade pode esconder uma situação financeira frágil.
O impacto ultrapassa o consumidor. Num agregado familiar, o dinheiro utilizado para pagar prestações deixa de estar disponível para alimentação, propinas, cuidados de saúde, manutenção da habitação e poupança para objectivos comuns.
Imagine uma família que paga mensalmente 12.000 meticais (MZN) em prestações de consumo, equivalentes a cerca de 188 dólares (USD), 165 euros (EUR), 3.084 rands (ZAR), 1.262 yuans (CNY), 29.880 ienes (JPY) ou 257.200 wons (KRW).
Ao longo de um ano, essa família desembolsa 144.000 meticais (MZN), aproximadamente 2.256 dólares (USD), 1.984 euros (EUR), 37.008 rands (ZAR), 15.144 yuans (CNY), 358.560 ienes (JPY) ou 3.085.000 wons (KRW).
Esse montante poderia ter outras utilizações, dependendo das necessidades do agregado familiar. Poderia, por exemplo, contribuir para uma reserva de emergência, reduzir dívidas mais caras ou financiar uma formação profissional.
Isto não significa que todas as compras a prestações sejam prejudiciais. Significa que cada compromisso deve ser avaliado pelo seu custo e pelo que retira ao orçamento familiar.
Quando uma dívida começa a alimentar outra
Uma situação particularmente delicada surge quando o consumidor contrai um novo empréstimo para pagar prestações anteriores ou utiliza continuamente o cartão de crédito para cobrir despesas essenciais que já não consegue suportar com o salário.
Nesse cenário, o crédito deixa de ser apenas um instrumento de pagamento e passa a funcionar como uma fonte de financiamento recorrente do orçamento doméstico.
Se o novo empréstimo tiver juros e comissões adicionais, a dívida total poderá aumentar mesmo quando o consumidor sente que está a ganhar tempo para organizar as finanças.
A consolidação de dívidas pode fazer sentido em determinadas circunstâncias, sobretudo quando reduz o custo global do financiamento e existe um plano realista de pagamento. Contudo, uma prestação mensal inferior não significa necessariamente um empréstimo mais barato: o prazo pode ser mais longo e o total dos juros pode aumentar.
A solução também exige controlar as despesas que originaram o problema. Caso contrário, a pessoa poderá consolidar as dívidas existentes e voltar a utilizar crédito para financiar o mesmo padrão de consumo.
O objectivo deve ser reduzir a dependência do financiamento, e não apenas deslocar as obrigações de um credor para outro.
Como deixar de financiar o estilo de vida com crédito
O primeiro passo é identificar a diferença entre despesas essenciais, compras ocasionais e consumo financiado. Sem essa distinção, torna-se difícil perceber quais os compromissos que estão a pressionar o orçamento.
Durante um mês, registe todas as despesas e todas as prestações. Depois, some os pagamentos mensais das dívidas e compare-os com o rendimento líquido disponível. Considere também as despesas que não acontecem todos os meses, como propinas, seguros, manutenção do automóvel e reparações da habitação.
Em seguida, suspenda temporariamente as novas compras financiadas que não sejam essenciais, enquanto reorganiza o orçamento. Isso não significa deixar de consumir por completo, mas evitar assumir novas obrigações antes de conhecer a capacidade financeira real.
Se já existirem dívidas, organize-as por saldo em dívida, taxa de juro, prestações e consequências do incumprimento. Pode ser útil priorizar as dívidas de custo mais elevado, sem ignorar os pagamentos mínimos e as obrigações contratuais das restantes.
Quando o orçamento não permite cumprir todas as prestações, contacte os credores antes de o incumprimento se agravar e peça informações sobre alternativas de pagamento. Compare o custo total de qualquer renegociação antes de aceitar novas condições.
Por fim, estabeleça uma reserva financeira compatível com as suas possibilidades. Se o rendimento for reduzido ou irregular, comece com um objectivo modesto e aumente-o gradualmente, sem deixar de pagar as despesas essenciais.
Conclusão: o crédito não deve substituir um rendimento insuficiente
O crédito pode ser útil quando financia uma necessidade planeada e quando o consumidor consegue suportar o custo sem comprometer as restantes obrigações. O risco começa quando se torna necessário contrair dívidas para manter hábitos de consumo que o rendimento não permite pagar.
O resultado pode ser um salário cada vez mais comprometido, uma redução da capacidade de poupança e uma maior vulnerabilidade a imprevistos. Quanto mais prestações se acumulam, menor tende a ser a margem para tomar decisões financeiras sem depender de novos empréstimos.
Seja em meticais, dólares norte-americanos, euros, rands sul-africanos, yuans chineses, ienes japoneses ou wons sul-coreanos, o princípio é o mesmo: a moeda muda, mas uma obrigação de pagamento continua a exigir recursos futuros.
Antes de assumir uma nova prestação, pergunte a si próprio se compraria o mesmo produto caso tivesse de pagar imediatamente com o dinheiro disponível. Depois, verifique quanto pagará no total e se o compromisso continuará a ser suportável caso o rendimento diminua.
O objectivo não é viver sem crédito a qualquer custo, mas evitar que as dívidas determinem o padrão de vida e consumam antecipadamente o salário dos meses seguintes.